O senhor chega, abre as portas para mais um dia de movimento no pub vermelho, aquele bonito da esquina onde todos gostariam de estar. Senhor, ele já passa da idade jovial, onde tinha mais esperança e conforto no corpo de tantas outras pessoas que ele conheceu ao longo da vida. A primeira vista, ele resolve não dar bom-dia aos funcionários que haviam chegado depois de alguns segundos. Ele nunca se atrasou, nem mesmo nesse dia. Ele desce, conta o dinheiro, reorganiza as bebidas, copos quebrados, carpetes manchados, corpos cansados, sem cheiro, sem vida. “Hoje o dia vai ser brabo”, pensa ele. Mas não deixa de escovar os cabelos e passar sua côlonia diária.
Atende os clientes, tantas almas solitárias que entram, bebem e se vão. E ele nem se quer soube o nome de cada um deles, nunca saberá o que pensaria aquele homem de barba por fazer, óculos fundo de garrafa redondo, cabelos um-pouco-mais-branco-que-o-normal, que tanta coisa deve ter para contar, quem sabe um amor novo? Nunca é tarde para amar, como dizem os filósofos, não? Tanta amargura, desamor, falta de confiança, a gente não pode mais viver do jeito que quer, os outros sempre estão lá, eles estão eu posso vê-los. Prefiro ficar sozinho, sem cliente, sem amor, sem amigos. “Deseja mais alguma coisa, senhor?”. Tudo não passa de prática, quanto mais ele falar com as pessoas, mais ele pode se envolver, de repente.
Pra quem já cansou de esperar pelo seu amor, pra quem correu a estúpida aventura de esperar, esperar pelo seu amor, não lhe resta mais nada. Ele nem se quer se machuca mais, nem isso ele é capaz de sentir. A vida passou rápido demais e lhe deixou a solidão de presente. Já não consegue se desfazer dela, está aprendendo a lidar com ela, tentar ser, de algum modo, feliz com ela.
Final de expediente. O que lhe restou? O pub vazio, alguns copos quebrados, carpetes manchados, corpos cansados, sem cheiro, sem vida. Uma funcionária limpando. 22 anos, cabelos curtos, morenos, olhos cor sem-graça-marrom-escuro, traços de tantas decepções em tão poucos anos de vida. “Senta aqui, toma uma cerveja comigo.”, diz o gerente. Ele já não sabe mais com quem conversar, com quem desabafar a estranha sensação de chegar meia idade com o nada em mãos. E tanto ele desejou, tanto ele sonhou. Já não pensa mais, são sonhos que vão se apagando com a idade, coisas que a gente já não deve mais sentir, já é tarde demais. Ele é fraco, ele não quer seguir em frente, mudar seria algo totalmente impróprio. Ele é sozinho, e queria contar à alguém que hoje era seu aniversário e tomar uma cerveja para comemorar. E ele o fez.